CASTELO DE SANTARÉM
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Mo cimo da
coIina em que tem um assento a progressiva cidade de Santarém perduram alguns lanços de
vasta muralha que em séculos idos foi refugio dos moradores, então modestamente
numerosos. Vitima de intromissões que o progresso urbano e certas vicissitudes políticas
ocasionaram, acabou ela por ficar limitada ao pouco que ainda existe; e daquilo que
interiormente constituíra propriamente o castelo, isto é, a alcáçova, com sua muralha
própria e decerto torre de menagem, bem pode dizer-se que só restam recordações. Com
verdadeira razão escreveu Matos Sequeira na introdução do volume consagrado ao
Inventario artístico do distrito de Santarém: «Aos restos da fortificação
escalabitana, mal se pode chamar Castelo». E justificando essa judiciosa afirmação,
assim a descreveu: «O que subsiste nas Portas do Sol. panos de muralha aproveitados, com
adarves modernos, para miradouro, uma guarita que se aponta como arábica para o Turismo,
cortinas refeitas e troços aqui e ali, na Travessa do Postigo, em Vale de Reis e junto ao
Asilo da Misericórdia, mal nos permitem imaginar a cidadela e a cerca muralhada, com oito
portas, das quais apenas se conservam, em parte, a de Santiago e a do Sol. Só o Cabaceiro
ou Torre das Cabaças ainda resiste a balbuciar recordações do passado guerreiro
da velha Scalabis. As ogivas (interior e exterior) da Porta de São Tiago, são outra
lembrança. Um escudo de Portugal, ladeado por uma legenda mutilada. ilegível agora,
decora-as ainda».
Do ponto
de vista histórico, importa todavia recordar que ao longo dos séculos esses veneráveis
restos, bem como as demais fortificações que hoje só pela imaginação podemos visionar
foram teatro ou testemunha de sucessos que lhe deram renome.
Relativamente
a tempos multissecularmente afastados de nossos dias, é verosímil a hipótese de ter
existido ai um dos numerosos castros que povoaram os cimos de tantas outras elevações,
visto que esta, cuja defensibilidade era evidente e que tinha a favorece-la a vizinhança
dum grande rio, não deixaria de atrair ocupantes.
Mas esse
alto só entra propriamente na história, em sucessos mais seguramente conhecidos, quando,
milénios depois do inicio dessa possível ocupação humana, os Romanos vieram à
Península e nela firmaram domínio. Na sequência dos combates então travados pelas
tribos peninsulares com as hostes romanas invasoras, sequência entremeada de conflitos
militares entre caudilhos romanos, mas com desfecho na Hispânia, chegou o ano 90 a. C. em
que Caio Júlio César, governador das terras hispânicas a oeste do Ebro, que constituam,
na organização romana, a Província Ulterior, se apossou definitivamente de Santarém,
e, instalando aqui uma guarnição romana permanente, significativamente lhe mudou para
Praesidium Julii a velha denominação Scalabis; significativamente, porque ao facto e ao
nome não pode deixar de crer-se correspondente à edificação de fortificações. E
quando, o traçado vial cujo desenvolvimento acompanhou a romanização fez passar por ali
uma das mais importantes estradas militares da Península a de Lisboa a Astorga,
por Conimbriga, Cale e Bracara bem se radica a convicção de conservar-se
fortificado o morro de Santarém. 
Talvez
seja licito imaginar que a trissecular paz romana fizesse descurar a perfeita
conservação de tais fortificações, e que assim estivessem quando no começo do século
V ocorreu a invasão da Hispania pela primeira onda de Bárbaros, e que os Suevos
descendo, na sua avançada de 529, do noroeste peninsular, onde primeiro se tinham
acantonado, até ao curso inferior do Tejo, se apossaram sem grande dificuldade de
Santarém, em cujo domínio foram substituídos pelos Visigodos século e meio depois,
como estes, por seu turno, o foram pelos muçulmanos, da invasão árabe nos começos do
século Vlll.
Nos
primeiros tempos da Reconquista Cristã. Santarém foi por mais de uma vez atingida pelas
algaras de vários reis asturo-leoneses, e as suas fortificações, às quais decerto já
então se devia chamar castelo, foram mais uma vez deterioradas, para voltarem a ser
reconstruídas sob domínio dos anteriormente ocupantes, neste caso muçulmanos.
A
essas algaras, puramente depredadoras de campos e povoações, primeiro ao sul do Douro e
depois ao sul da Mondego sucessivos limites austrais da zona seguramente
reconquistada seguiram-se nos últimos anos do século XI e primeiros do imediato
alternativas da posse do castelo de Santarém, a acompanharem a da própria povoação.
Nos meados da Primavera de 1093, o rei muçulmano de Badajoz, cujos domínios se alargavam
ao Alentejo e à Estremadura, temendo ser deposto pelo chefe dos Almorávidas o
qual vindo de Marrocos, encetara uma vasta campanha destinada a fazer a unidade política
da Espanha muçulmana então retalhada em vários reinos entregou ao monarca
leonês Afonso VI, conjuntamente com Lisboa e Sintra, Santarém, como recompensa de
prometido auxílio militar, que afinal não lhe pode ser prestado, quando poucos meses
depois, no começo de 1094, os Almorávidas conquistaram Badajoz e mataram o aliado de
Afonso VI, após o que, correndo ao norte, se apossaram daquelas terras que este dele
recebera no ano anterior. Porém já em 1095, Santarém estava novamente em posse cristã,
e assim se conservou até Maio ou Junho de 1111, data em que a guarnição do castelo,
demoradamente sitiada, houve de render-se. O domínio muçulmano perdurou nele novamente
até que, constituído já Portugal, o nosso primeiro Rei, D. Afonso Henriques, encetando
em 1147 uma sistemática política de alargamento dos domínios portugueses para o sul,
assaltou Santarém de surpresa e efectuou a sua conquista. Nessa época, grande parte da
população vivia em arrabalde, que, de meia encosta descia para o rio, enquanto lá no
alto, ao abrigo de muralha envolvente, estacianavam outros moradores, decerto em mais
modesto número, e prontos a acolherem-se, em ocasião de perigo, ao castelo propriamente
dito. O monarca saiu de Coimbra nos princípios de Março daquele ano, com minguada mas
escolhida hoste, e poucos dias, depois acampava, de noite, muito próximo de Santarém,
sem ser pressentido. Aproveitando o escuro, D. Afonso Henriques, e os seus homens de
guerra aproximaram-se da muralha, prontos para o assalto, mas tiveram ainda de aguardar
momento mais propício, pois esperando encontra-la deserta, avistaram, com surpresa, duas
sentinelas passeando sobre o adarve. De madrugada, quando vencidos pelo sono, foi
encostada a muralha uma primeira escada, e por ela três homens subiram; um deles, o
alferes, alteava o pendão real. Despertadas pelo ruído, estes lhes afogaram os gritos de
alarme; entretanto, arvorada outra escada, num ápice vinte e cinco Portugueses se achavam
sobre a muralha, e, descendo ao terreiro, conseguiram abrir uma porta ali vizinha, a de
Atamarma, por onde irromperam o Rei e outro grupo de combatentes. A hoste portuguesa
derramou-se, em atroadora vozearia, pela povoação, como um vendaval de morte. Pequeno
era o número dos seus componentes, mas como que o centuplicavam a surpresa e a ousadia do
ataque, uma e outra paralisando a defesa do pânico estabelecido, e assegurando assim a
rapidez da vitória. Em poucas horas, povoação e alcáçova ficaram dominadas; Santarém
regressara, e desta vez definitivamente, ao domínio cristão.
Um quarto
de século após a conquista, em 1171, voltou o castelo de Santarém a estar em pé de
guerra; lúçufe, califa dos AImóadas, tribo marroquina rival da dos Almorávidas,
resolveu passar à PenínsuIa para estimular as enfraquecidas operações militares dos
seus adeptos, empreendidas para substituir ao domínio almoravida o domínio almoada.
Tendo juntado tropas na Andaluzia, enviou-as, ou veio ele mesmo com elas, atravessar o
Alentejo, atravessado em atrevida correria até ao Tejo, transpondo o qual, essas forças
atacaram Santarém, onde se achava D. Afonso Henriques, já um tanto invalido, pois a
perna que fracturará em 1169, na retirada do cerco de Badajoz, perdera vigor, parecendo
mesmo que não mais pode o valoroso guerreiro montar a cavalo. Todavia ao avizinhar-se a
hoste muçulmana, deve ter-se D. Afonso Henriques juntado à guarnição do castelo, a
qual parece ter saído ao encontro do inimigo sem grande resultado, continuando em alarme,
dada a enormidade das forças muçulmanas, até que estas, ante a ameaça de serem
atacadas pelas tropas de Fernando II, rei de Leão e genro do monarca português, que se
avizinhavam, empreenderam a retirada. Quase no fim do reinado de D. Afonso Henriques, em
1181, Santarém onde se achava então o infante Sancho, futuro Sancho I, voltou a sofrer
ataque muçulmano, e, como anteriormente, resistiu; mas desta vez por efeito duma poderosa
sortida da guarnição do castelo, reforçada por outros combatentes.
Em l245,
quando o infante D. Afonso, futuro Afonso III, chegou a Portugal, de que fora nomeado
regente, substituindo o rei D. Sancho II, seu irmão, que fora deposto pelo papa, vários
castelos logo reconheceram a sua autoridade e um deles foi o de Santarém.
No século XIV, por várias vezes se inseriu
na história política da Nação, a do castelo de Santarém: em 1324, a última das
várias revoltas de um outro infante Afonso, o futuro Afonso IV, contra seu pai, D. Dinis,
teve a seu favor os moradores de Santarém, mas foi dominada pelo monarca, que também
aí, em 7 de Janeiro do ano imediato, veio a falecer; em Fevereiro de 1373. lá no alto,
assistiu D. Fernando, sem resistência, à passagem das forças militares do rei
castelhano Henrique lI, por segunda vez invasor de Portugal; finalmente, quando aberta a
crise dinástica decorrente da morte de D. Fernando em 1383, e aclamada sua filha, D.
Beatriz, então casada com o monarca castelhano João I, Santarém não pode apoiar o
Mestre de Avis, D. João, Futuro D. João I, que fora elevado à regência pela
revolução de Lisboa, porque ali se refugiou a rainha viúva, Leonor Teles, e logo depois
se apossou de Santarém o rei consorte de D. Beatriz, instalando guarnição castelhana no
castelo, a qual só o abandonou em 1385, após a vitoria de Aljubarrota.
Em tempos
modernos, Santarém e o seu castelo figuram nas lutas entre os irmãos D. Miguel I e D.
Pedro IV, constituindo, já quase ao fim delas, desde Outubro de 1833 até 17 de Maio de
1834, reduto de D. Miguel I e de um dos seus exércitos.
A
par dessa história militar, teve sem dúvida lugar uma revolução construtiva: porém,
quase só conjocturalmente é possível apontar-lhe os progressivos passos. Da Santarém
romana, Praesidium Julii, há motivos para crer que estaria muralhada, mas decerto com
modesta extensão, e talvez não houvesse mais do que isso nos vaivéns de mutilação e
reconstrução que devem ter acompanhado as sucessivas conquistas realizadas por Suevos,
Visigodos e Árabes, do século V ao século VIII. Todavia em 1147, quando D. Afonso
Henriques empreendeu a conquista de Santarém já ai existia, além duma muralha
envolvente, o castelo da Alcáçova. No tempo de D. Dinis e de D. Fernando. essas
fortificações foram melhoradas, devendo-se ao segundo desses monarcas, provavelmente a
ampliação do muralhamento primitivo e a reforma de portas, como a de Santiago com sua
ogival. D. João IV e mais tarde D. Miguel, promoveram a realização de algumas obras no
conjunto defensivo de Santarém, talvez em remedeio das mais gritantes ruínas ocasionadas
pelo megasismo de 1531.
Porém a irreverente acção urbanística,
particularmente agravada no decurso do século XIX, reduziu esse conjunto ao pouco que
dele subsiste, destruindo grande parte dos testemunhos dum glorioso passado, que
felizmente perdura em paginas de documentação histórica, e se evoca na contemplação
dos seus venerandos restos.
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