CASTELO
DE ALCÁCER
DO SAL
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Marcando o
circuito da parte cimeira duma elevação que com seus modestos seis dezenas de metros de
altitude se ergue na margem setentrional do rio Sado, sobranceiramente à vila de Alcácer
do Sal, perduram os restas duma muralha, provavelmente sucessora ou remodelação daquela
que em longínquos tempos constituiu limites de primitiva povoação, e abrigo de todos
quantos à beira rio se ocupavam nas fainas dum trabalho fluvial que remontava à séculos
bastante anteriores à era de Cristo, como o testemunham os artefactos helénicos achados
na região.
Dssa
muralha, de planta muito aproximadamente elíptica, com uns 260 metros de eixo maior e uns
150 de eixo menor, restam sobretudo os lanços da face setentrional, reforçada por alguns
torreões, enquanto a ocidente se alteiam ainda, meio derrubadas, algumas edificações
casteleiras de taipa.
Na sua
quase insignificância actual, esses restos correspondem certamente a reedificações de
alguma primitiva fortificação romana, já que a importância de Alcácer do Sal, em
tempo dos Romanos denominada Salácia, foi por eles acarinhada, vindo, como vinha, já de
anteriores eras. E no quadro da rede vial que instituíram, Alcácer do Sal tornou-se nó
de estradas, como era próprio do seu importante movimento comercial, ali chegando a
estrada que vinha do estuário do Tejo, e dali partindo duas outras, uma por Évora
prosseguia para Mérida, e outra dirigida a Beja, servindo o Baixo Alentejo e o Algarve. 
Não se
esbateu com as vicissitudes das invasões dos Bárbaros a importância de Alcácer do Sal,
e ainda se engrandeceu sob o domínio muçulmano, ali existente desde o ano 715 da nossa
era, pelo decurso de mais uns quatro séculos, até que, entrada a segunda metade do
século XII, o nosso primeiro rei conquistou a povoação, transpondo após várias
tentativas as fortificações que já então a guarneciam. Entretanto, porém, na ano 966,
uma numerosa frota de Normandos subira o Sado até perto de Alcácer do Sal, mas desistiu
de qualquer ataque, à vista da sua poderosa defessa.
A
conquista de Santarém e de Lisboa, seguida da ocupação de Palmela, tinha desdobrado
ante as Portugueses grandes perspectivas quanto ao avanço austral do seu domínio; assim,
o castelo de Palmela, ponto estratégico importante, por abrir as flechas de invasão o
vale do Sado, logo em 1148 foi ultrapassado pela reduzida hoste com que D. Afonso
Henriques realizou a primeira tentativa de conquista
de Alcácer do sal
planeando um ataque súbito, processo que tão bons resultados dera em
Santarém, sigilosamente se aproximou o monarca daquele seu objectivo, acompanhado apenas
duns sessenta combatentes; mas a queda de Lisboa tornara vigilantes os muçulmanos, que
logo surpreenderam e repeliram a pequena hoste, ficando ferido o próprio Rei.
Não sendo
em resultado duma feliz surpresa, Alcácer do Sal e o seu castelo, agora com cuidadosa
defesa, só poderiam cair nas mãos dos Portugueses após assedio, operação militar de
desfecho demorado e execução difícil;
tentou-a, todavia, D. Afonso Henriques em 1151 e 1152, mas teve de desistir, e repetiu-a
também inutilmente em 1157, ajudado nestas tentativas de expugnação por armadas de
Cruzados do norte da Europa, em transito para a Palestina. Essa serie de insucessos não
quebrou, porém, o animo do rei de Portugal, que no ano seguinte, com soldados
portugueses, entre os quais muitos cavaleiros da Ordem de Santiago, alcançou enfim
vitória. 
Em 1186,
falecido no ano anterior D. Afonso Henriques, o seu filho e sucessor fez doação de
Alcácer do Sal e seu castelo aos Espatários, mas essa posse não foi por eles conservada
mais de cinco anos, perdendo-a a favor dos muçulmanos em consequência da ofensiva que,
ali além do Tejo, realizou em 1191 o imperador almóada lacube; recuperaram na porém,
novamente em 1217, quando incorporados na expedição com que o terceiro monarca
português, D, Afonso II, realizou essa reconquista, após sanguinolentos recontros que se
alongaram desde Agosto até Outubro daquele ano.
Não
voltou mais Alcácer do Sal à posse muçulmana; e tempos depois, reinando D. Dinis,
ordenou este monarca que nesse castelo, à semelhança do que praticou relativamente a
muitos outros, se fizessem melhoramentos.
Nos fins
do século XIV, por ocasião da crise dinástica subsequente ao falecimento de D.
Fernando, o castelo de Alcácer do Sal, guarnecido por Espatários, seguiu o partido do
Mestre de Avis, depois rei, D. João I; e por ali, mais de uma vez passou com sua hoste o
Condestável Nuno Alvares Pereira, a caminho das campanhas que em terras alentejanas
sustentou no decurso da Guerra da Independência.
Nos
últimos anos do século XV, Alcácer do Sal foi localidade que vincou no íntimo dos dois
grandes monarcas portugueses de então, D. João II e D. Manuel I, alguns desses sucessos
pessoais que se gravam no coração e a memória não olvida. Foi ali, com efeito, que D.
João II teve denuncia da conspiração chefiada pelo Duque de Viseu, e, mudando o rumo a
jornada, para salvar a vida. Quanto a D. Manuel I, a Alcácer do Sal lhe chegaram em 1495,
embora já tarde, os chamamentos de D. João II, moribundo em Alvor; e nessa terra logo
nasceu o seu orgulhoso e brilhante reinado, à pronta noticia do falecimento daquele
grande Rei de Portugal. Mais tarde, a 30 de Outubro de 1500, foi igualmente em Alcácer do
Sal que D. Manuel, já com dois anos de viuvez, se consorciou com a segunda esposa,
infanta castelhana D. Maria, ali chegada nesse dia, acompanhada desde a fronteira
portuguesa de Moura por luzido cortejo da maior nobreza e mais alto clero de Portugal.
È
possível que a predilecção destes grandes monarcas por Alcácer do Sal se reflectisse
na conservação do castelo; ultrapassado, porém, já o tempo da eficiência dos castelos
medievais, e desprovido este de meios ofensivos apropriados à nova arte de guerra,
Alcácer do Sal caiu facilmente em poder das forças castelhanas que em 1580 Filipe II de
Espanha enviou pelo Alentejo à conquista da Coroa portuguesa.
Depois, o
tempo, o abandono e mesmo a avidez de espaço construtivo, foram executando a sua obra de
destruição; mas no que resta desses esburacados muros de taipa e desses parcialmente
derruídos lanços de muralha alguns vacilantes bem recentemente e a cuja
Segurança houve de prestigiosamente acudir a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos
Nacionais perdura a glória das velhas legiões de Espatários, que ajudaram a
construir Portugal.
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